Mais semelhanças do que diferenças em Manaus.

 

Desde que anunciei minha mudança para Manaus fui bombardeado não por perguntas, mas afirmações a respeito de todas as diferenças que encontraria nesta nova experiência. O elemento mais comentado sempre é o clima e as críticas ao calor. Entretanto, pouco mais de quarenta dias após minha chegada, posso afirmar que entre diferenças e semelhanças encontrei diversos pontos em comum no que realmente importa a mim: pessoas.

Manaus é quente (e todo mundo parece saber bem disso, mesmo quem nunca a visitou – rs), mas a cidade é preparada com estabelecimentos BEM climatizados. Chego a passar frio às vezes (sim, vim de Curitiba para passar fio em Manaus – rs). Caminhar na rua é um desafio que não me impediu de explorar as ruas do centro e do bairro em que moro. Peguei também alguns ônibus para viver um pouco da realidade de pessoas que atravessam a cidade para trabalhar e compreender seus comportamentos.

No primeiro relato que fiz sobre minha chegada à cidade, intitulado “É preciso vivenciar uma realidade para transformá-la”, comentei sobre a estranheza das pessoas em relação à minha empolgação na forma de cumprimentar ou quando fazia algum elogio. Agora, com a experiência acumulada nas observações participativas realizadas até aqui, posso afirmar que existe uma espécie de agressividade latente, uma dificuldade das pessoas serem gentis umas com as outras, tanto na comunicação oral quanto na não verbal. Entre os manauaras, e aqueles que residem aqui já há algum tempo, isso parece ter se tornado algo “normal”. Não percebem os impactos negativos nas suas relações cotidianas. Isso se reflete também, e de maneira ainda mais expressiva, no trânsito da cidade.

É importante dizer que não se trata aqui de uma mera comparação entre Manaus e outra cidade, nem tão pouco entre as pessoas daqui e as de quaisquer outros lugares. Esta reflexão surgiu à medida que pude observar as interações daqui, em ambientes organizacionais (indústria e comércio) e locais públicos.

Para compreender esta aparente normalidade é preciso resgatar o conceito da Normose, proposto por Pierre Weil, conhecido educador e psicólogo francês residente no Brasil. O termo se refere às normas, crenças e valores sociais que causam angústia. São “comportamentos normais de uma sociedade que causam sofrimento”. Justificados com base no argumento de que “todo mundo faz” ou “sempre foi assim” e que perpetuam uma sociedade cheia de normoses. Esta normose é, infelizmente, uma das semelhanças que percebemos em diversos outros lugares do Brasil.

O desejo por reconhecimento

Outra semelhança está na maneira como as pessoas aqui expressam um desejo de serem percebidas e reconhecidas. Vivenciei isso no hotel em que fiquei meus primeiros 30 dias na cidade de Manaus.

Hotéis sempre me deixam um pouco desconfortável. Nada contra, apenas sinto muita falta da possibilidade de cozinhar algo que eu queira. Além disso a dinâmica num hotel voltado para viagens de negócios sempre desfavorece uma maior interação entre os hóspedes. Foi neste cenário que um dos colaboradores conseguiu se destacar em meio ao grande grupo de profissionais que iam e vinham todos os dias pelo saguão e corredores. Vamos chamá-lo de “Sr. B.”, ok?

Quase todo os dias o Sr. B. recebia a mim e os demais hóspedes no café da manhã. Sempre de bom humor e com muitos novos assuntos, além dos seus corriqueiros “interrogatórios”. Adorava saber a opinião das pessoas sobre os mais variados assuntos e agradecia àqueles que compartilhavam suas ideias sempre com muita humildade. Nas tardes em que eu trabalhava do hotel, tinha o hábito de descer para o saguão e acompanhar o movimento do vai e vem na recepção. Nestas ocasiões o Sr. B. me trazia sempre uma grande xícara de café e parava de pé ao meu lado para me fazer perguntas e conversar. Certa vez, achando que estava me atrapalhando comentou: “Gosto de conversar com as pessoas. É que os hóspedes são como parte da minha família. Eu quero que as pessoas me vejam… percebam que eu existo e aqui trabalhando pra elas se sentirem bem”.

Depois desta experiência com o Sr. B. passei a perceber como este mesmo comportamento podia ser percebido nos profissionais que trabalhavam nos preparativos do apartamento em que eu viria morar e outros lugares. A diferença apenas é que o Sr. B. parecia bem consciente desta vontade de ser percebido e reconhecido.

Estas duas características, as normoses e esta vontade de reconhecimento, são semelhanças que observo em regiões distintas do Brasil. Coincidem também com relatos referentes à Cultura Organizacional de países da América Latina e outras regiões do globo. Basta observar com um olhar apreciativo nas pesquisas realizadas por diferentes institutos e empresas.

A importância de inspirar a mudança

Mas é preciso lembrar que este não é um cenário estático ou determinista. Comportamentos como a normose precisam e devem ser desencorajados pelas organizações para construção de uma cultura voltada para solução, colaboração e alto desempenho. Isto se constrói por meio das campanhas de comunicação e incentivo que evidenciam melhores práticas nas relações interpessoais cotidianas. O desafio é criar mensagens apreciativas e assertivas que exemplifiquem o que os colaboradores podem fazer, ao contrário de ditar regras do que os empregados tem de fazer.

Iniciativas como projetos de ambientação que introduzam mensagens lúdicas (texto + imagens) relacionadas às atitudes de (auto)valorização são capazes de quebrar paradigmas consolidados como normoses e ainda despertar a percepção de reconhecimento que os colaboradores tanto anseiam.

Campanhas de comunicação podem ir muito além de informar. Iniciativas desenhadas com foco na experiência do colaborador podem também formar e consolidar uma nova e valorosa Cultura Organizacional em Manaus e em tantos outros estados.

E você, como lida com este cenário nas suas organizações? Experimente observar como alguém de fora e apreciar o aprendizado.

Rafael Giuliano,
observando, participando e transformando o mundo.

Quer uma mãozinha criativa para criar novas iniciativas de comunicação apreciativa e assertiva para seus colaboradores? Então venha e falecom@Rideto.one!

 

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